Síndrome da Fragilidade – Como o Fisioterapeuta Pode Ajudar o Idoso Frágil?

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Síndrome da Fragilidade - Como o Fisioterapeuta Pode Ajudar o Idoso Frágil

Quando envelhecemos, é natural que algumas de nossas funções fiquem prejudicadas.

Algumas alterações são próprias de idade e devemos aprender a lidar com elas para envelhecermos da melhor forma possível.

Mas, e quando as alterações vão um pouco além do que se pode esperar com o envelhecimento?

Como diferenciar o envelhecimento saudável de sinais, digamos, patológicos?

Muito vem sendo estudado sobre a Síndrome da Fragilidade, muito importante para os idosos, pois idosos frágeis possuem um maior declínio funcional e uma da função, permitindo a independência funcional dos idosos.

O que é a Síndrome da Fragilidade?

A Síndrome da Fragilidade nada mais é do que uma “Síndrome biológica ou redução de reserva e resistência a estressores, resultando em declínio de vários sistemas fisiológicos, levando a vulnerabilidade e acontecimentos adversos”. (Campbell, 1997 e Hamerman, 1999)

Ela é caracterizada pelo declínio de energia que ocorre em espiral e que é baseada num tripé de alterações relacionadas ao envelhecimento: Sarcopenia, Desregulação Neurológica e Disfunção imunológica (Fried, 2003).

A fragilidade pode ainda ser definida com base em três critérios fundamentais, derivados da sua definição:

No idoso frágil, a força de resistência do organismo a agentes estressores é reduzida, resultando em uma menor capacidade de resistência, que faz com que o organismo do idoso perca sua capacidade de retornar a homeostasia após eventos estressores que gerem desequilíbrio no organismo.

Síndrome da Fragilidade - Como o Fisioterapeuta Pode Ajudar o Idoso Frágil

Como Identificar o Idoso Frágil? – A Avaliação da Síndrome da Fragilidade

A avaliação da fragilidade mais utilizada hoje em dia é aquela ciada por Fried e Watson em 2001, que é uma avaliação através da utilização dos cinco domínios para identificação do fenótipo de fragilidade descrito por eles.

Segundo Fried et al, o fenótipo de Fragilidade possui cinco domínios, listados a seguir:

  1. A perda de peso não intencional;
  2. Exaustão;
  3. Nível de atividade física;
  4. Força muscular;
  5. Velocidade da marcha.

#1 – Avaliação de Perda de Peso Não Intencional

A avaliação da perda de peso leva em conta a perda não intencional avaliada através das perguntas:

  1. “No último ano, o Senhor (a) perdeu peso involuntariamente (isto é, sem dieta ou exercício)?”;
  2. “Se sim, quantos quilos aproximadamente?”.

Caso o idoso relatasse que perdeu 4,5Kg ou mais, ou 5% ou mais do seu peso corporal no ano anterior, então ele preenche o critério de fragilidade para este item.

#2 – Avaliação da Exaustão

A avaliação da exaustão é feita através de duas questões da escala de depressão do Center for Epidemiological Studies Depression Scale (CES-D) referentes à última semana.

O item sete (“Sentiu que teve que fazer esforço para dar conta da suas tarefas habituais?”) e o item 20 (“Não conseguiu levar adiante suas coisas”).

As respostas devem ser referentes à última semana, e são dadas na escala Likert (Nunca ou raramente = 0, poucas vezes = 1, na maioria das vezes = 2, sempre = 3). Idosos que obtiveram escores 2 ou 3, em qualquer uma das duas questões, preencheram o critério de fragilidade para este item.

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#3 – Avaliação do Nível de Atividade Física

A avaliação da atividade física é feita através da medida do dispêndio semanal de energia em quilocalorias (Kcal), ajustado ao sexo, avaliado através do Minnesota Leisure Time Activities Questionnaire (MLPTAQ).

O cálculo foi baseado nas atividades:Caminhada, exercícios de condicionamento, esportes, atividade no jardim e horta, reparos domésticos, tarefas domésticas, dentre outras, nas duas últimas semanas.

O gasto energético (Kcal/semana), é calculado utilizado um algoritmo padronizado: [Gasto calórico = 0,0175 X tempo (minutos) da atividade realizada na semana X número de Mets (equivalente metabólico da tarefa) da atividade X massa corporal (Kg)].

Esta variável foi estratificada pelo sexo: Homens com gasto energético semanal menor que 383 Kcal e mulheres com gasto energético semanal menor que 270 Kcal foram considerados frágeis segundo Fried. 

#4 – Avaliação de Força Muscular

A avaliação da força muscular é feita pela força de preensão palmar, através do dinamômetro hidráulico, com a média de três medidas com a mão dominante.

O teste adota as recomendações da American Society of Hand Therapists (ASHT): Indivíduo sentado, em cadeira sem apoio de braços e com pés apoiados no chão; Com ombro aduzido; O cotovelo fletido a 90°; O antebraço em posição neutra e o punho entre 0 a 30° de extensão.

O ponto de corte para item é feito de acordo com IMC, e existe uma tabela para a padronização dos valores.

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#5 – Avaliação da Velocidade da Marcha

A avaliação da velocidade de marcha é feita através do tempo de marcha, em segundos, gasto para percorrer uma distância de 4,6 metros.

A distância total a ser percorrida é de 8,6 metros, uma vez que os dois metros iniciais e os dois metros finais são referentes aos períodos de aceleração e desaceleração e não são considerados para o cálculo do tempo da marcha.

Se o paciente possuir pelo menos 3 características acima ele é considerado frágil.

Se possuir uma ou duas características acima ele possui uma tendência à fragilidade e se não tiver nenhuma das características acima, é considerado idosos não frágil, ou robusto.

Efeitos Adversos da Síndrome da Fragilidade

A Síndrome da Fragilidade, por si só, não possui sintomas específicos, além dos critérios que a definem.

No entanto, a presença da fragilidade prediz diversos desfechos desfavoráveis para os idosos, dentre eles:

  • Maior índice de mortalidade;
  • Maior número de institucionalizações;
  • Maior número de quedas;
  • Maior número de hospitalizações;
  • Elevado negativa diante de condições clínicas;
  • Maior medo de cair;
  • Maior número de fraturas;
  • Agravamento de doenças crônicas;
  • Predisposição a doenças agudas;
  • Dificuldade de recuperação após doenças comuns da idade;
  • Entre outros.
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Causas da Síndrome da Fragilidade

Não existe causa única definida para a Síndrome da Fragilidade, pois se acredita que existe um envolvimento multissistêmico, que engloba:

  • Componentes Moleculares – Estresse oxidativo aumentando, perdas mitocondriais, danos ao DNA e envelhecimento celular;
  • Componentes Fisiológicos – Anorexia, sarcopenia, osteopenia, alteração de coagulação, alteração cognitiva, redução de energia (metabolismo da glicose), maior susceptibilidade a estressores (deficiência imunológica);
  • Componentes Clínicos – Perda de massa corporal, força (fraqueza), fadiga, resistência, equilíbrio, marcha, declínio funcional, redução da capacidade para atividade física, isolamento social, alterações cognitivas medianas.

Esse envolvimento pode ser manifestado através do fenótipo da fragilidade, demonstrado acima, que ajuda na identificação do idoso frágil.

Mas a fragilidade não pode ser limitada a esse fenótipo, pois ela envolve muito mais fatores do que os descritos em sua identificação.

O que fazer pelo idoso frágil: Como o Fisioterapia pode ajudar na Síndrome da Fragilidade

O primeiro passo para o manejo adequado da Síndrome da Fragilidade é uma identificação e diagnóstico precoce daquele e a falta de recursos no sistema de saúde torna essa identificação precoce ainda mais desafiadora.

Cabe a profissionais de saúde com um olhar mais aguçado e voltado para a funcionalidade, como o fisioterapeuta, a identificação desses idosos frágeis, com o objetivo de se estabelecer um tratamento precoce, bem como a prevenção da instalação da síndrome, em populações idosas vulneráveis.

O tratamento e a prevenção da Síndrome da Fragilidade buscam a melhora da saúde e qualidade de vida para este grupo de idosos mais vulneráveis e evita que idosos saudáveis se tornem frágeis.

Eles independem de doenças específicas e passam pela melhora da condição física, por uma intervenção nutricional e pela reposição hormonal, quando necessário.

É aí que se insere o fisioterapeuta.

Os objetivos gerais do tratamento fisioterápico são:

  • A prevenção e tratamento de possíveis declínios funcionais;
  • A prevenção da restrição ao leito e da dependência funcional;
  • A abordagem do familiar e/ou do cuidador;
  • O tratamento fisioterápico com objetivos específicos, como ganho de força e resistência muscular, ganho de equilíbrio,controle postural, treino de marcha e adaptação de dispositivos auxiliares de marcha, quando necessário.

O tratamento fisioterápico deve estar sempre voltado para a capacidade funcional, de forma a direcionar os exercícios para as atividades prejudicadas.

Ele deve ainda envolver outros aspectos da funcionalidade, como a capacidade cognitiva.

Além disso, o idoso deve ser orientado em relação à mudanças comportamentais, para que os benefícios do tratamento sejam mantidos e perpetuados em relação à prática de atividade física de acordo com as preferências e possibilidades pessoais, à realização de atividades mentais como jogos e leitura, incentivo a socialização, ao reconhecimento e tratamento de depressão e outras doenças psiquiátricas associadas e em relação à uma boa nutrição e uma dieta balanceada.

Epidemiologia da Síndrome da Fragilidade

A Síndrome da Fragilidade vem se tornando cada vez mais comum, se encontrando numa curva ascendente de crescimento devido ao envelhecimento populacional.

É muito importante que os profissionais estejam preparados para atender e lidar com esse tipo de paciente, pois quem se antecipa às tendências sempre tem o privilégio de estar preparado no momento certo.

O perfil do idoso frágil é formado por idosos mais velhos, a maioria do sexo feminino, de origem afro americana, com o menor nível educacional, menor condição de saúde (problemas crônicas de saúde), com maior de doenças crônicas (cardiovasculares, pulmonares, artrites, diabetes), associadas à incapacidade (necessidade de auxílio para atividades de vida diária), declínio cognitivo e depressão.

Nos Estados Unidos, 6,9% dos idosos com 65 anos são frágeis e 30% dos idosos com 80 anos ou mais sofrem dessa síndrome.

Na Holanda, 19% dos idosos com 65 anos ou mais são frágeis, enquanto no Canadá cerca de 27% dos idosos possuem a Síndrome da Fragilidade.

No Brasil existem poucos dados sobre a Síndrome da Fragilidade, mas tudo indica esta condição está em crescimento significativo junto à população idosa.

Em um estudo feito em Belo Horizonte, foram encontrados 13,27% de idosos frágeis em uma amostra de 113 de idosos comunitários.

A fragilidade em idosos foi associada, nesse estudo, à idade avançada, falta de trabalho, ser viúvo, baixa renda, analfabetismo, comorbidades e incapacidade em atividades de vida diárias.

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Referências Bibliográficas

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Fried, L.P. et. al. Frailty in Older Adults: Evidence for a Phenotype. The Journals of Gerontology, Março 2001

Kulminsky, A. et. al. Accumulation of Health Disorders as a Sistemic Measure of Age: Findings from the NLTCS data Mech Ageing Dev, Dezembro 2006

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JAMA PATIET PAGE Frailty in Older Adults Novembro 2006

Neri, A.L.; Perfis de Fragilidade em Idosos Brasileiros: Pesquisa multicêntrica e interdisciplinar com idosos recrutados na comunidade REDE FIBRA