Lesões que o Esporte Pode Causar em Crianças e Adolescentes

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Lesões esportivas constituem uma das barreiras mais presentes no cotidiano dos atletas.

Mas os atletas mais jovens podem acabar sendo mais vulneráveis a algumas lesões, o que pode comprometer todo o desenvolvimento futuro da criança ou adolescente.

É recomendado que o fisioterapeuta ou outro profissional de saúde envolvido com este cliente, reconheça os principais acometimentos, seus mecanismos de trauma e como preveni-los, sobretudo em 4 esportes muito praticados no Brasil:

  • Futebol,
  • Futsal,
  •  Vôlei
  • Handebol.

Os efeitos das lesões na atividade esportiva

A consequência mais imediata é a interrupção da atividade e/ou competição.

Atrelado a ela, também ocorre:

  •  Aumento de gastos para a equipe;
  • Desmotivação do atleta;
  • Déficit de rendimento;
  • Mudança de rotina.

Um outro fator agravante, é que recentemente tem-se exigido mais dos atletas infantis.

Esta exigência pode ser física ou psicológica e, infelizmente, poucas pessoas trabalham as funções psicológicas dos atletas.

O que pode causar lesões esportivas em crianças

A propensão à lesões, desse perfil mais jovem de atletas, decorre da própria maturação do sistema musculoesquelético.

Outro fator é a questão dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI), uma vez que nem todos estão disponíveis para o tamanho infantil.

Além disso, não é difícil encontrarmos crianças obesas, com habilidades motoras ainda não desenvolvidas, com uma proporção do tamanho da cabeça e do corpo desfavoráveis ao esporte, além dos períodos de defasagem entre treinos e provas escolares, complicando o condicionamento físico.

Esse assunto pode não parecer tão relevante em um primeiro momento, mas você sabia que em 2009 morriam 21 crianças por dia nos EUA por causa dos esportes?1

Isso é muito preocupante, até porque para as crianças, os esportes são um entretenimento, um meio de ajudar no crescimento, mas muitas vezes podem significar uma futura carreira profissional.

As lesões podem ocorrer por traumas ou por excesso de uso (overuse).

  • Lesões agudas

Encontradas na maioria dos esportes coletivos. São as contusões, entorses e fraturas.

  • Lesões por excesso de uso

Mais comuns em saltadores, como ocorre no vôlei e no basquete, como por exemplo a tendinopatia patelar (ou joelho de saltador).

As lesões de sobreuso,  frequentes no tênis e no golfe, geram inflamações de tendões nos braços, que promovem o surgimento das epicondilites.

Veja agora, no contexto dos esportes principais, lesões que são mais prováveis de acontecer.

1. Basquete

O que pode causar lesões esportivas em crianças

De maneira geral, independente da faixa etária, temos alguns fatores importantes relacionados a lesões:

  • Gênero sexual
  • Hipermobilidade articular
  • Desequilíbrio muscular
  • Elasticidade tendínea
  • Assimetria de desenvolvimento neuromuscular (desenvolvimento da dominância)

O gênero sexual é um fator intrínseco completamente impossível de ser modificado pela assistência fisioterapêutica.

É muito relacionado à biomecânica, no qual as pelves ginecoides das atletas femininas tendem a provocar maior tensão no ângulo do joelho — articulação principal no salto do basquete.

Essa angulação do joelho predispõe as mulheres à dor patelofemoral e a lesões de Ligamento Cruzado Anterior, enquanto que nos homens é mais comum a tendinopatia patelar.

A hipermobilidade articular pode ser corrigida por meio de terapia manual, osteopatia, exercícios de fortalecimento e de alongamento dos músculos estabilizadores.

Isto pode resolver a questão do desequilíbrio muscular e disfunção tendínea.

Mas não se pode abrir mão também dos agentes eletrotermofotobiológicos, os quais são excelentes para esse tipo de estrutura.

Laserterapia e exercícios excêntricos são padrão ouro no manejo dessas tendinoses.

Ainda em relação à mobilidade, é consenso que a baixa amplitude de movimento da articulação do tornozelo também predispõe à tendinopatia patelar (independente do sexo do atleta).

A angulação funcional para o esporte deve ser de pelo menos 37° de dorsiflexão.

O treino neuromuscular e proprioceptivo, por sua vez, é uma das melhores opções para intervir na assimetria e dominância de membros.

Quanto a outros fatores de risco temos:

  • Condição pobre do solo

Isso acontece com crianças mais carentes que treinam em terrenos irregulares.

  • Falhas no uso do EPI e de técnicas esportivas

Isso pode acontecer no treino não-supervisionado.

Ainda pensando em um quadro mais vulnerável, as crianças podem acabar praticando o esporte de forma irresponsável, sem aprendizado e sem a atenção necessária quanto à proteção pelos EPIs.

E outro efeito do treino não-supervisionado é a falta de aprendizado das técnicas deste esporte, o basquete, que coopera com a integridade física do praticante.

O que pode causar lesões esportivas em crianças

As lesões mais recorrentes são:

  • Entorses de tornozelo
  • Distensões musculares

As entorses ocorrem mais nos momentos de salto e aterrissagem do que nos de ofensiva.

Na maioria das vezes essas lesões não envolvem nem mesmo luxação, então a aplicação de crioterapia pode resolver o problema rapidamente.

Para crianças inseridas no esporte, de forma competitiva, é interessante o uso de bandagens e de órteses.

As órteses estabilizadoras de tornozelo podem reduzir a incidência de entorses em até 5 vezes. 

Entretanto, a aderência a essas órteses depende muito da influência parental da criança e também da sua própria faixa etária.

 Atletas mais jovens são mais receptivos.

Os mais velhos consideram-nas desconfortáveis e não reconhecem a real necessidade delas.

Mas isso não é tão ruim quanto parece, já que os estudos mostram que as entorses são mais comuns em crianças de 7 a 11 anos do que nas de 12 a 17, por exemplo.

Dessa forma, ao prescrever a órtese ou até mesmo a bandagem, deve-se sempre reforçar a importância dela e aplicá-la da forma mais confortável possível. Além disso, ela deve oferecer resultados e otimização do desempenho.

Os treinos de salto e de equilíbrio também são importantes meios de se alcançar a estabilidade de tornozelo.

Para as demais lesões possíveis, nunca se deve esquecer dos exercícios de estabilidade central e de controle neuromuscular de membros inferiores.

2. Futebol

O que pode causar lesões esportivas em crianças

Primeiro, temos os seguintes fatores de risco:

  • Lesão prévia
  • Baixa pontuação no Knee injury and Osteoarthritis Outcome Score (KOOS)
  • Idade
  • Grau de habilidade esportiva

Quanto a fatores extrínsecos, podemos apontar:

  • Local de treino
  • Regras do jogo
  • Uso de EPI

As lesões esportivas relacionadas ao futebol são as mais comuns, mas isso não deveria ser uma normalidade, porque somente pelo fato de o praticante ter uma lesão prévia, haverá uma predisposição de que ele tenha 3 vezes mais chances de ter outra lesão.

Dentre os esportes coletivos, o futebol é o único que pode ocasionar fraturas ao jogador.

Fraturas em crianças e adolescentes podem ser muito sérias quando afetam significativamente o seu desenvolvimento e têm chance de deixar sequelas.

A avaliação do joelho também é outro importante fator de risco. Estudos dizem que uma pontuação menor que 80 pontos no questionário (já validado para o Brasil) Knee injury and Osteoarthritis Outcome Score (KOOS) também predispõe o jogador ao risco de lesão.

Quanto às lesões mais comuns, temos a Lesão de Ligamento Cruzado Anterior (LCA) e a entorse de joelho.

Para prevenir a lesão de LCA, estudos indicam que um aquecimento neuromuscular é uma excelente opção, já que pode reduzir a incidência em até 64%.

Mas como eu devo fazer o aquecimento?

Essa etapa é o conjunto de medidas que servem como preparo à atividade física.

 A intenção dela é a obtenção de um estado físico e/ou psicológico na prevenção de lesões e que dura, em geral, 15 minutos.

Esse aquecimento proposto é diferente do usual porque envolve necessariamente exercícios de estabilidade central, de equilíbrio e de alinhamento do joelho (evitando os valgos).

Além dos aquecimentos, treinos de gestos esportivos também são importantíssimos. Treinos de pouso e queda e o programa FIFA 11+ são ótimas estratégias.

Outros meios de prevenção às lesões no futebol também são:

-Utilização de bandagens,

-Alongamentos,

 -Melhora do condicionamento físico.

FIFA 11+

Esse programa, idealizado em 2006 pelo Centro Médico e de Pesquisa da FIFA (Federação Internacional de Futebol), consiste em uma sequência de 15 exercícios divididos em 3 seções, que trabalham:

  •  –Corrida,
  • – Alongamentos ativos,
  • – Estabilização central,
  • – Força muscular de membros inferiores,
  • –  Equilíbrio postural,
  • – Agilidade
  • – Posições de marcação do futebol.

O FIFA Eleven Plus é prescrito por treinadores capacitados pelo material disponível no site do FIFA 11+.

A proposta é fazer com que os atletas desenvolvam uma boa postura, controle corporal, bom alinhamento de membros inferiores e aterrissagens suaves em sua prática esportiva.

A maior vantagem é que qualquer atleta pode fazer, porque os exercícios são classificados em: iniciante, intermediário e avançado.

Vantagens do FIFA 11+:

  1. Tem embasamento científico
  2. É simples, não requer custo adicional com equipamentos
  3. Dividido em níveis de dificuldade
  4. Facilmente implantável mediante o treinamento via internet
  5. Produz resultados
  6. Pode ser usado para qualquer modalidade esportiva, não só para o futebol

Desvantagens:

  1. Tempo relativamente longo para produzir resultados (10 a 12 semanas quando o treino é de pelo menos 2 vezes por semana)
  2. Requer supervisão
  3. Não pode ser realizado por partes ou fora de ordem

Assim como o basquete, as lesões futebolísticas acontecem mais em crianças mais novas (13 a 16 anos) comparado com a faixa de 16 a 18 anos.

Mas nesse caso pode ser mais relacionado novamente ao uso de EPI.

Sempre deve-se evitar equipamentos improvisados.

Quando falamos em grau de habilidade, falamos do quanto o atleta conhece o futebol.

Passe de bola, tiro de meta, dribles… os atletas mais habilidosos são geralmente mais expostos a lesões, provavelmente pela demanda do treinador.

Por isso, por mais que pareça desnecessário, os programas de prevenção devem ser aplicados aos atletas mais experientes também.

E, por fim, uma última estratégia levantada nas evidências é a questão psicológica dos atletas.

Fazer sessões de psicoterapia relacionadas à concentração, relaxamento e respiração abdominal, pode diminuir a taxa de lesões.

3. Handebol   

No geral, o maior fator de risco para lesões é o déficit muscular.

Devido ao arremesso, movimento que é usado exaustivamente, há aumento de força dos rotadores internos do ombro e diminuição de ADM desse segmento.

Isso acontece porque os rotadores internos, agem concentricamente na aceleração, enquanto os externos agem excentricamente na desaceleração.

Uma boa estratégia para atenuar isso é a implantação de treinamento funcional com TRX.

E as lesões mais comuns são:

  • Lesões de ombro, por overuse
  • Lesões de tornozelo e joelho (entorses e tendinopatias)

4. Voleibol

Não se encontra com facilidade na literatura os fatores de risco existentes no vôlei, porque é um dos esportes coletivos com menores índices de lesões.

A mais comum delas é também como nos outros 3 esportes, a entorse de tornozelo.

Nessa lógica, quanto maior a estatura do atleta, maior o risco de entorse.

A segunda lesão mais comum é a tendinopatia patelar, devido aos saltos, como no basquete. E, nesse caso, pode acontecer por excesso de treino.

Essas lesões acontecem mais no contexto de treino e nas posições de ataque ou bloqueio.

Por que se importar com as lesões esportivas em crianças e adolescentes

O que pode causar lesões esportivas em crianças

São muitos os fatores que determinam a ocorrência dessas lesões. Relembre:

  • Imaturidade do sistema musculoesquelético
  • Obesidade
  • Desenvolvimento incompleto de habilidades motoras, como se proteger diante um impacto
  • Proporção altura/cabeça desfavorável ao esporte praticado
  • Defasagem de treinos por atividades escolares
  • Falta de EPI

Negligenciá-las ou até mesmo achar que “elas fazem parte do treino” não é nem de longe uma boa ideia.

Em alguns países, na verdade, foram pesquisadas as bases de dados e verificaram que o basquete, por exemplo, causa mais lesões que o futebol, só perdendo para atividades recreativas como andar de bicicleta.

Primeiro porque muitas crianças já são muito influenciadas pela competitividade, e não se importam com as lesões. Elas querem competir e/ou se divertir.

Mas os responsáveis e os profissionais devem se manter atentos, porque lesões recidivas podem causar alterações posturais e deficiências gerais no sistema músculo esquelético destas crianças.

Prevenir é sempre a melhor opção. Então não deixe de fazer uma boa avaliação, caso seu paciente pediátrico tenha um histórico das lesões associadas aos esportes.

Além dessas lesões mais prováveis, é importante ficar atento a dores inespecíficas do seu atleta.

Não é raro que sofram de lombalgia, principalmente os praticantes de vôlei.

Referências:

  1. Schwebel DC, Brezausek CM. Child Development and Pediatric Sport and Recreational Injuries by Age. 2014. Journal of Athletic Training.

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