Estimulação Elétrica Neuromuscular e Muscular: Aplicações Clínicas

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Estimulação Elétrica

NMES é eficaz na recuperação da função motora?

Para o bom entendimento da aplicação da estimulação elétrica muscular, devemos ter em mente os conceitos básicos de ativação nervosa por meio de impulsos elétricos, assim como conhecer os diferentes tipos de fibras musculares e seus padrões de recrutamento.

Como esses conceitos são amplos, e foram abordados em outros tópicos da nossa discussão, inclusive no post anterior sobre as aplicações das correntes excitomotoras, nesse post vamos nos ater à aplicação efetiva dessas correntes, e seus principais usos na prática clínica, para encerrarmos com chave de ouro nossa série sobre eletroestimulação.

Tipos de aparelhos

Existem diversos tipos de aparelhos comercializados para o uso da eletroestimulação. Cada um deles utiliza um tipo diferente de corrente, e tem nomes específicos. Essa variedade torne a escolha do aparelho correto um pouco mais complicada.

Não existe nenhum evidência sobre a superioridade de um tipo de aparelho sobre outro na eletroestimulação, seja em relação à marca, tamanho, o fato de ser ou não portátil… O mais importante é se certificar de que o aparelho que você está adquirindo possui as especificações necessárias para que sejam utilizados os parâmetros corretos para o tipo de tratamento desejado.

Nomenclatura de tipo de estimulação elétrica em nervo e músculo

A Associação Americana de Fisioterapia, especificamente sua seção de eletrofisiologia, determinou uma nomenclatura única para as correntes elétricas utilizadas de forma terapêutica, a saber: correntes contínuas, correntes alternadas, e correntes pulsadas.

Já conversamos sobre todos esses tipos de correntes em textos anteriores, caso queira dar uma olhada em nossos arquivos para revisar alguns conceitos, esse é o momento.

Outros conceitos importantes para a classificação dos diferentes tipo de estimuladores comerciais dizem respeito ao objetivo da terapia, definindo a forma de estimulação. A partir disso, podemos diferenciar os aparelhos em:

  • Estimulação elétrica neuromuscular (NMES): esse tipo de estimulação é usualmente utilizado para a produção de contração muscular, através da aplicação de correntes suficientemente fortes para tal, podendo ser aplicada ao músculo concomitantemente à movimentação ativa, ou de forma passiva, sem que haja movimento.
  • Estimulação elétrica funcional (FES) ou estimulação neuromuscular funcional (FNS): esse tipo de estimulação é utilizado com o objetivo de auxiliar ou gerar movimento funcional. Os aparelhos de FES podem ser estimuladores de dois canais para a produção de movimentos mais simples como a dorsiflesão, durante a marcha, ou estimuladores mais complexos, de múltiplos canais, utilizados na restauração do equilíbrios de forças na musculatura de pacientes paraplégicos, por exemplo.
  • Estimulação elétrica terapêutica (TES): esse tipo de estimulação é especificamente utilizado para a produção de efeitos sensoriais.
  • Eletroestimulação (ES): termo geral que significa aplicação de correntes elétricas com objetivos terapêuticos.

Evidências de eficácia clínica

Muitos estudos são feitos utilizando-se a eletroestimulação nervosa e muscular. No entanto, a maioria dessas estudos encontra achados inconsistentes e inconclusivos acerca dos efeitos desses tipos de terapias, suas eficácia, e sobre os parâmetros corretos para sua utilização.

Muitas dessas inconsistências podem ser explicadas pela falta de grupos-controle nos estudos, pelo número limitado de participantes, e pela grande variedade de protocolos utilizados.

Apesar dessas diferenças, contudo, evidências apontam na direção da estimulação elétrica no que diz respeito a ganho de força muscular, melhoria da função e redução de tônus em certas populações. Discutiremos mais sobre essas indicações a seguir.

Fortalecimento em condições não-neurológicas

Dois mecanismos principais foram propostos para o ganho de força muscular com NMES – Estimulação Elétrica Neuromuscular.

O primeiro é correspondente ao treinamento de força utilizando exercícios voluntários, ou seja, através de um treinamento com poucas repetições, e cargas externas elevadas, gerando alta intensidade de contração muscular (ao menos 75% de 1RM).

O segundo é através do recrutamento de fibras musculares fásicas, com baixo limiar para o NMES, e que são prioritariamente treinadas nesse tipo de estimulação.

Poucas evidências suportam a utilização de NMES para ganho de força em músculos saudáveis. Contudo, em algumas circunstâncias, o NMES se prova efetivo, como no caso do fortalecimento de abdominais em adultos saudáveis, ou no caos de fortalecimento de músculos estabilizadores da coluna.

Ou seja, essa informação corrobora o uso do NMES em musculaturas comumente atrofiadas, de forma permitir ganho de força ou prevenir a atrofia por desuso, ou então para uma (re)educação e conscientização corporal, proporcionando um feedback para o paciente acerca da musculatura a ser trabalhada e dos movimentos necessários para se alcançar tal nível de contração muscular voluntária.

Além disso, o NMES poder ser utilizado nos casos em que o movimento ativo seja contra-indicado ou impedido por algum motivo.

As evidências comprovam que o uso de NMES na recuperação de lesões de joelho se provou efetivo no ganho de força e melhora da função, bem como sua utilização nas incontinências urinárias e fecais, para ganho de força e treino proprioceptivo da musculatura do assoalho pélvico.

Pouco se têm de evidência, no entanto, para a utilização do NMES na recuperação, ou mesmo manutenção, da função de músculos denervados.

Uso de estimulação elétrica em adultos com condições neurológicas

Um dos aspectos mais estudados acerca da utilização do NMES é a recuperação ou a melhoria da função motora em pacientes neurológicos através da eletroestimulação, principalmente em pacientes com sequelas motoras após um AVE.

Os estudos focam primariamente na melhora ou recuperação da função motora, no ganho de força, na subluxação de ombro (focando na prevenção do estiramento capsular), e na redução da espasticidade em adultos com quaisquer condições neurológicas.

Efeitos benéficos também foram encontrados, considerando-se os mesmos aspectos, com a aplicação de TES e NMES em crianças com condições neurológicas.

Aplicação Prática

  • Preparo da pele: a pele deve ser lavada com água e sabão, ou limpa com álcool, de modo a remover resíduos e a oleosidade presente na pele, permitindo a adequada acoplagem dos eletrodos.
  • Eletrodos: existem dois tipo básicos de eletrodos, os à base de polímeros, principalmente a borracha siliconada, e eletrodos e estanho ou alumínios. O primeiro tipo é o mais utilizado, por ser reutilizável, pode ser cortado no tamanho adequado, facilmente higienizado, e se molda facilmente às superfícies corporais. Os eletrodos são fixados com faixas adesivas e acoplados à pele através de um gel condutor. O tamanho dos eletrodos depende da área a ser tratada.
  • Colocação dos eletrodos: normalmente, um dos eletrodos é colocado sobre o ponto motor do músculo, e outro é colocado sobre o ventre muscular. Existem diversos guias indicando a localização do ponto motor de cada músculo do corpo.
  • Parâmetros de tratamento: os parâmetros que afetam a resposta do músculo e do nervo à estimulação elétrica já foram descritos em outro texto. São eles: formato da onda, amplitude e duração do pulso, frequência da corrente, ciclo de trabalho, modulação em rampa, e duração total do tratamento. A tolerância do paciente é a principal referência para a intensidade da corrente, sendo preconizado o uso da maior corrente tolerada. A força da contração irá depender da amplitude, da frequência, da duração e do formato do pulso.
    • Frequência da corrente: inicialmente, frequências baixas são utilizadas (cerca de 20Hz), com tempos de contração muscular mais curtos, e tempos de relaxamento muscular mais longos, com o objetivo de minimizar a fadiga muscular.
    • Ciclos de trabalho e tempo de rampa: para o tratamento convencional, com frequências baixas a médias, podem ser utilizados tempos de subida de dois a três segundos. Em casos de intensidades maiores, o tempo de subida pode ser de até cinco segundos. O tempo on e o tempo off devem ser ajustados de forma a prevenir a fadiga muscular. A razão 1:5 é a mais utilizada inicialmente, podendo ser progredida para 1:3.
    • Frequência de tratamento: o volume de treinamento segue os princípios do treinamento de força convencional, 8-12 repetições, 2-3 séries, 3-5 vezes por semana, com aumento da intensidade de acordo com a progressão do tratamento.
  • Onde comprar eletrodo – www.lupmed.com.br/eletrodos

Parâmetros de Tratamento Mais Utilizados

  • Tipo de Corrente;
    • CA pulsátil ou modo pulsado (burst).
  • Amplitude de Estimulação;
    • Máxima tolerável/para produzir máxima amplitude de movimento.
  • Duração do pulso;
    • 100-300µs.
  • Forma de onda;
    • Preferência da pessoa.
  • Frequência de Estimulação;
    • 20-100 pulsos ou disparos/s.
  • Ciclo de Trabalho;
    • Inicial com on:off de 2s:10s ou 5s:15s.
  • Tipo de Contração;
    • Isométrica.
  • Número de Contratações por Sessão;
    • 10-20 na Intensidade máxima tolerável ou 15 minutos por sessão 2-3 vezes ao dia.
  • Frequência das sessões;
    • 3-7 vezes/semana..

Riscos e contra indicação para o uso da NMES

Como toda técnica, a NMES também possui riscos de utilização e cuidados especiais para a sua aplicação. Já comentamos dos riscos de utilização das correntes excitomotoras como um todo, e os riscos de utilização da NMES não são diferentes.

E com esse texto, concluímos nossa série de 9 artigos sobre eletroterapia. Abordamos os conceitos eletrofisiológicos por trás da eletroterapia, as principais correntes terapêuticas utilizadas na prática clínica, e seus usos mais frequentes, perpassando por parâmetros práticos de utilização.

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Você pode conferir abaixo, outros posts sobre eletroterapia:

Referência: KITCHEN, Sheila. Eletroterapia : Eletroterapia : Prática Baseada em Evidências. 2003. 2ª Edição. Barueri, São Paulo. 8520414532.