Artrocinemática – O Movimento das Articulações

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Artrocinemática

Nota: Esta é a segunda parte de uma série sobre Articulações. Se está chegando agora, leia a primeira parte em que falamos sobre As Articulações Sinoviais e Seus Movimentos.

No texto anterior sobre articulações, demos para você o conhecimento básico sobre a estrutura anatômica das articulações, especialmente as sinoviais e sobre como essa estrutura pode interferir no movimento. Foi dito lá alguns conceitos básicos do Sistema Articular e introduzimos as articulações principais para a geração do movimento humano, as articulações sinoviais.

Vamos começar explorando um pouco mais as articulações sinoviais, que são aquelas encontradas em maior número no corpo humano, e as responsáveis pela geração de movimentos em grandes amplitudes, dos diversos seguimentos corporais.

Então, com esses conceitos em mente, poderemos então entender e pensar como é que as articulações geram movimento, e poderemos entrar em um assunto super importante para o fisioterapeuta, e para qualquer especialista no movimento: A artrocinemática.

A artrocinemática nada mais é do que o estudo dos movimentos das articulações. Como já sabemos, sem as articulações, não existe movimento. É pela conexão entre os ossos que elas formam que os diversos e complexos movimentos humanos são possíveis, e entender como eles ocorrem, em quais padrões, e quais são as capacidades articulares, é fundamental para entender como nos movemos de forma fisiológica, e para saber tratar qualquer patologia do movimento que esteja relacionada às articulações.

Iremos introduzir um conceito de cada vez. Começando com as articulações sinoviais.

Classificação das Articulações Sinoviais Baseada na Analogia Mecânica

As articulações sinoviais podem ser classificadas de acordo com os movimentos que elas produzem, como uma analogia às alavancas mecânicas mesmo. Portanto, utilizando deste raciocínio, podemos dividir as articulações sinoviais em:

  • Planas:

As articulações sinoviais planas são articulações não axiais, ou seja, os movimentos realizados por ela incluem o deslizamento (translação) ou deslizamento e rotação combinados. Exemplos desse tipo de articulação são as articulações intercarpais e intertarsais.

  • Gínglimo ou Dobradiça:

As articulações sinoviais do tipo gínglimo ou dobradiça são articulações uniaxiais. Elas possuem uma face côncava e uma face convexa. A face côncava desliza em torno da face convexa, permitindo flexão e extensão de um segmento corporal. É possível, ainda, a realização de translação leve (deslizamento) em complementação à rotação. Como exemplos, temos a articulação do cotovelo e as articulações interfalângicas.

  • Trocoide ou Pivô:

Assim como o tipo anterior, as articulações sinoviais do tipo trocoide ou pivô são uniaxiais. Porém, diferente de um gínglimo, o membro móvel está paralelo ao eixo de rotação nesse tipo de articulação. Ela permite rotação em torno de um eixo longitudinal. Como exemplo temos a articulação rádio-ulnar proximal, e a articulação atlanto-axial.

  • Elipsóide ou Condilar:

As articulações do tipo elipsóide ou condilar são biaxiais. Esse tipo de articulação tem formato esferóide, “ovóide” ou elipsóide, e permite a circundução, mas nenhuma rotação. Exemplos desse tipo de articulação incluem a articulação do punho – articulação radiocarpical.

  • Bicondilar:

As articulações do tipo bicondilar são biaxiais. Elas são articulações esferóides sem músculos devidamente localizados para realizar a rotação, que de outro modo poderia ocorrer. Exemlpos clássicos são a segunda e a quinta articulações metacarpofalângicas (mas não a do polegar), a articulação do joelho, e a articulação atlantooccipital.

  • Esferóide ou Enartrose:

Articulações do tipo esferóide, ou enartrose, são as articulações mais móveis do corpo humano. Elas são triaxiais, e permitem os movimentos de circundução e rotação. Como exemplos, temos as articulações do ombro e do quadril.

  • Selar:

As articulações selares também são triaxiais, e nelas, ambos os ossos tem a forma semelhante à uma sela, e se encaixam entre si. Permite circundução e leve rotação. Como exemplo no corpo humano temos a articulação capometacárpica do polegar.

O que Garante a Estabilidade Articular?

Falamos dos formatos das articulações, mas as articulações não são apenas dois ossos em contato. Elas possuem todo um sistema que as mantém no lugar correto e permite que o movimento ocorra da forma adequada, sem gerar lesões.

Dentre os fatores que contribuem para a estabilidade articular, encontram-se:

  • Formato das Superfícies Ósseas: o próprio formato dos ossos em contato contribui para a estabilidade articular. Osso com uma superfície articular mais convexa/côncava permitem uma melhor acoplagem da articulação, enquanto osso mais planos possuem um contato menor entre as superfícies articulares, fazendo com que a articulação perca estabilidade;
  • Organização dos Ligamentos e Músculos: falaremos mais sobre esses elementos mais para a frente, mas é meio que óbvio que eles garantem a estabilidade da articulação, permitindo que o movimento ocorra da forma como deve ocorrer;
  • Outros Tecidos Conjuntivos.

Posições de Ajuste Máximo e Ajuste Frouxo das articulações sinoviais

A posição de ajuste máximo é a angulação na qual há a maior área de contato entre as superfícies articuladas, ou seja, o momento na amplitude de movimento total da articulação onde ela possui maior estabilidade.

Nessa posição, as inserções dos ligamentos estão à maior distância e sob tensão, as estruturas capsulares estão esticadas, e a articulação está mecanicamente comprimida e é difícil de tracionar.

Já na posição de ajuste frouxo, as estruturas ligamentares e capsulares estão frouxas. Sendo assim, as superfícies articulares podem ser tracionadas vários milímetros. Essa posição permite os necessários movimentos de rotação, rolamento e deslizamento, e pode diminuir o atrito articular.

Artrocinemática: Qual a Sua Importância?

A artrocinemática estuda a movimentação das superfícies articulares em relação à direção do movimento da extremidade distal do osso (osteocinemática).

Embora semelhantes, às articulações mecânicas tais como dobradiça, pivô, plano, esfera e cone, as articulações biológicas apresentam características bem peculiares.

Dentre elas estão o baixo coeficiente de atrito, presença de sensibilidade e feedback proprioceptivo, e respostas de crescimento dinâmico de uso, mas também às complexidades mecânicas das articulações.

Os movimentos artrocinemáticos são os movimentos que ocorrem no interior da articulação e, eles descrevem a distensibilidade na cápsula articular permitindo que os movimentos fisiológicos ocorram ao longo da amplitude de movimento sem lesar as estruturas articulares.

Movimentos das Superfícies Articulares

Artrocinematicamente falando, quando uma articulação se move, cinco tipos de movimento podem ocorrer entre as duas superfícies: giro (ou torção, ou rotação), rolamento (ou balanço), tração, compressão e deslizamento (ou escorregamento).

Vamos explicar um pouco sobre cada um deles:

Movimentos Articulares - Osteocinemático

  • Rolamento: Durante o rolamento, um osso rola sobre o outro. Esse movimento possui algumas características peculiares: as superfícies ósseas são incongruentes, e novos pontos de uma superfície encontram novos pontos na superfície oposta.Movimentos Articulares - Deslizamento
  • Deslizamento: Um osso desliza sobre o outro, só que dessa vez as superfícies articulares são congruentes e o mesmo ponto em uma superfície faz contato com novos pontos na superfície oposta. Diferentemente do rolamento, a superfície articular que se move influência a direção do deslizamento, o que é chamado como regra convexo-côncava.Movimentos Articulares - Torção
  • Torção: Na torção, um osso gira sobre o outro, sendo que as superfícies articulares são congruentes, e o mesmo ponto em uma superfície faz contato com um mesmo ponto na superfície oposta.

Eixos de Movimentos Articulares

O eixo não permanece o mesmo durante todo o movimento, muito pelo contrário, ele muda ao longo do movimento de forma que os eixos articulares permaneçam oblíquos aos eixos longitudinais dos ossos, como por exemplo na extensão completa do cotovelo – ângulo de carregar.

Estes conhecimentos são necessário para entender os movimentos articulares, e como qualquer alteração na mecânica das articulações pode comprometê-las.

No próximo artigo iremos falar sobre os mecanismos de estabilização articular.

Se você tem alguma dúvida sobre a anatomia articular e a artrocinemática ou quer que a gente escreva sobre algum ponto em especial, deixe seu comentário aqui.

Até semana que vem.