Termoterapia: Todo Fisioterapeuta sabe o porquê de usar o gelo?

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Como se beneficiar com o uso correto da termoterapia

A utilização do calor e do frio, como técnicas terapêuticas, termoterapia, é um dos recursos mais antigos utilizados pelo homem.

Hoje, tanto o calor, em suas diversas formas de aplicação, quanto o frio, caracterizado na prática clínica principalmente pelo gelo, são amplamente utilizados como tratamento em diversas condições. Principalmente pelo fisioterapeuta.

Termoterapia Gelo

Mas será mesmo que todo fisioterapeuta sabe por quê está utilizando o gelo? Ou o calor?

Elaboramos esse texto com o objetivo de esclarecer alguns pontos sobre a utilização do calor e do frio na fisioterapia, quando utilizar cada um, quais são os seus efeitos e principalmente para você se lembrar, não apenas da aplicação das técnicas, mas dos motivos e efeitos fisiológicos da termoterapia.

Microestrutura da matéria

Para entendermos a fundo a aplicação do calor e do frio de forma terapêutica, termoterapia, precisamos entender, sim, um pouquinho de física. Biofísica, para ser mais preciso.

Toda molécula vibra em torno de sua posição de equilíbrio, gerando o que chamamos de energia cinética. Se mais energia térmica é acrescentada, ou seja, mais calor é dado à partícula, a quantidade de movimento aumenta e, consequentemente a temperatura também aumenta.

Os sólidos são formados por um conjunto de moléculas compactadas em um padrão regular, que vibram menos, produzindo menos energia cinética e menos calor. Já os líquidos possuem moléculas com uma amplitude de vibração maior e seus átomos têm maior velocidade em razão de sua maior temperatura e movimentos aleatórios. Nos gases, então, os átomos ficam amplamente espaçados e se movem de forma aleatória por distâncias muito maiores.

Temperatura – Base da Termoterapia

A temperatura nada mais é do que a medida de calor. Os termômetros mais simples utilizam a expansão para medir a temperatura.

No corpo humano, a temperatura é avaliada por receptores cutâneos, não de forma absoluta, mas através de uma comparação entre as temperaturas da pele.

A temperatura de um corpo reflete o movimento de seus átomos, ou seja, a quantidade de energia cinética que ele contém. Não existe, portanto, um valor teto para a temperatura. Contudo, existe um limite inferior, no qual não existe movimento algum, o famoso zero absoluto.

Sempre que acrescentamos calor à matéria, ela se expande, refletindo em um aumento de volume, ou em um aumento de pressão, no caso de a matéria estar contida. A adição de calor pode, ainda, modificar o estado físico da matéria, aumentar a sua temperatura, ou ambos.

Outros efeitos da adição de calor a um corpo incluem o aumento da velocidade das reações químicas, uma maior diferença de potencial entre diferentes metais, emissão termoiônica, e a redução da viscosidade em líquidos.

Conversões de Energia

O calor pode ser convertido em outras formas de energia, mas sempre com alguma perda. Assim como existe perda de calor na transformação de um tipo de energia em outro, como de energia química em mecânica, por exemplo.

As transferências de calor podem acontecer de várias maneiras. São elas:

  • Condução: o calor é transferido de um corpo ao outro através do movimento de moléculas, passando de uma para a outra, através do contato. Quando colocamos dois materiais diferentes em contato, o calor pode ser transferido de um para o outro, sempre passando do material mais aquecido para o material menos aquecido. Isso porque as moléculas do material mais quente vibram mais, fornecendo energia cinética ao material mais frio. Esse fluxo de calor entre um material e outro é chamado de condutividade térmica e varia de acordo com o tipo de material. Metais são excelentes condutores térmicos, enquanto líquidos e gases são piores condutores térmicos.
  • Convecção: essa transferência de calor ocorre pela quantidade de movimento das moléculas em vibração, ao moverem-se de um local para o outro, movendo energia térmica por convecção, ou seja, transportando calor com elas.
  • Radiação: o calor pode ser transferido através da transformação de energia térmica em radiação eletromagnética, como as infravermelhas, as visíveis e as de microondas, que podem levar ao aquecimento quando absorvidas. A quantidade de radiação produzida depende da temperatura do objeto. O comprimento de onda também depende da temperatura, gerando ondas cada vez mais curtas com temperaturas mais altas.

Mecanismos de regulação da temperatura corporal

Os seres humanos são seres homeotérmicos, ou seja, nossa temperatura é controlada por órgãos internos.

A temperatura corporal varia 1ºC, geralmente aumentando ao longo do dia, e a homeostasia é mantida através do ganho e da perda de calor, pelos mecanismos acima explicados.

As principais causas do ganho de calor ao longo do dia incluem o metabolismo basal, o metabolismo da contração muscular, a digestão, a absorção de radiação do ambiente, a condução proveniente de outros objetos quentes.

Causas de perda de calor ao longo do dia incluem radiação para o ambiente, condução para objetos mais frios, condução para o ar, calor sendo continuamente removido por convecção, evaporação de água da pele, evaporação de suor, ar quente exalado, excreção de urina, fezes e outros fluidos.

A regulação térmica é feita através dos termo receptores cutâneos, fibras tipo C, do grupo IV, amielínicas, cujas principais funções são a de sinalizar a sensação de temperatura (consciente) e contribuir para o controle da temperatura do corpo (inconsciente).

A regulação térmica fisiológica é feita pelo hipotálamo, sensível à temperatura do sangue, envolvendo um controle metabólico, vasomotor e hídrico. A regulação comportamental é feita pelos centros superiores.

  • Controle metabólico: quando o corpo está perdendo calor, ocorre um aumento reflexo do metabolismo, através da liberação de adrenalina, produzindo contrações musculares – tremores – e aumento na produção de energia pelo tecido adiposo.
  • Controle vasomotor: um aumento do fluxo sanguíneo para determinada região, através da vasodilatação, aumenta a sua temperatura. De forma análoga, uma vasoconstrição gera redução de fluxo, e conseqüente redução da temperatura.
  • Sudorese: uma das formas mais eficientes de perder calor. O suor pode ser produzido em grande quantidade, mas a sua evaporação e consequente resfriamento corporal, depende da temperatura e da umidade do ar ambiente.
  • Regulação comportamental: subjetiva, ligada à sensação de calor ou frio.

Efeitos fisiológicos das mudanças de temperatura dos tecidos

O aquecimento de todos os tecidos corporais origina alterações fisiológicas, que geram alterações sistêmicas, interferindo na homeostasia.

Como dito anteriormente, a velocidade de qualquer reação química aumenta com o calor, assim como a atividade metabólica basal – cerca de 13% para cada elevação de 1ºC na temperatura. A elevação da temperatura aumenta toda a atividade celular, incluindo motilidade celular, a síntese e a liberação de mediadores químicos, a taxa de interações celulares como a fagocitose e a viscosidade de líquidos.

O tecido colagenoso tem sua extensibilidade aumentada com o calor, se um alongamento for feito simultaneamente. A faixa terapêutica para esse efeito é de 40 a 45ºC.

A aplicação de calor e de frio, termoterapia, também interfere na atividade de condução de estímulos nervosos, alterando os receptores sensoriais da pele e controlando a nocicepção.

A aplicação de frio nos nociceptores inibe a sensação da dor, fenômeno conhecido como contra-irritação. O calor, no entanto, gera hiperalgesia, devido à resposta do Sistema Nervoso Central em nível cortical. Portanto, para controle álgico, a melhor escolha é mesmo o gelo.

O calor pode ser empregado na redução de espasmos musculares, através do aquecimento das terminações nervosas dos fusos musculares aferentes secundários e das terminações tendíneas de Golgi.

A aplicação de frio tem efeito acentuado nos nervos periféricos. Inicialmente, os receptores de frio são estimulados. Em seguida os receptores sensoriais gerais. Com a redução da temperatura, a velocidade de condução é reduzida. Em temperaturas baixas o suficiente, a condução nervosa pode ser totalmente abolida, produzindo analgesia.

Nos vasos sanguíneos, o calor faz com que capilares, arteríolas e vênulas se dilatem, através de um reflexo axonal disparado pela estimulação de receptores polimodais, e também devido ao aumento do metabolismo, levando à liberação adicional de dióxido de carbono e ácido láctico e à maior acidez dos tecidos aquecidos, provocando vasodilatação.

Uma reação inflamatória gerada pelos danos às proteínas causados pelo aquecimento excessivo, também leva à vasodilatação.

A viscosidade dos líquidos corporais – sangue, linfa, líquido intra e extracelular – aumenta com o resfriamento e diminui com o aumento da temperatura.

Outros efeitos da aplicação de calor nos tecidos incluem: aumento das trocas de líquidos através das paredes dos capilares e membranas celulares, redução do pH, aumento do o dióxido de carbono e de oxigênio.

Em resumo, os efeitos da aplicação de calor no organismo são pró-inflamatórios e aumentam o metabolismo, enquanto os efeitos do frio são anti-inflamatórios e analgésicos, pois reduzem o metabolismo.

O frio é mais bem utilizado em lesões agudas, enquanto o calor pode ser mais útil em lesões crônicas.

A alternância de aplicação de calor e frio pode contribuir para uma drenagem linfática e sanguínea, prevenindo a formação de edemas e equimoses, através de uma bomba circulatória gerada pela vasodilatação e vasocontrição alternadas.

Do ponto de vista terapêutico, nos tecidos profundos, a temperatura se altera cerca de 5 a 6ºC acima ou abaixo da temperatura central, enquanto na pele e no tecido subcutâneo as variações de temperatura podem ser muito maiores.

A utilização da termoterapia

A utilização da termoterapia deve ser feita com cuidado, pois o aumento da temperatura a níveis acima de 45ºC leva à desnaturação proteica e inatividade enzimática, com consequente destruição celular e morte tecidual. Por outro lado, temperaturas muito baixas levam a uma redução no metabolismo e destruição celular por congelamento dos líquidos corporais.

Com o avanço da tecnologia e o surgimento de técnicas e equipamentos cada vez mais modernos e sofisticados, muitas vezes o fisioterapeuta deixa de lado recursos simples e eficazes, como as bolsas de água quente e o gelo, que são baratos, fáceis de utilizar, e podem ser feitos pelo próprio paciente, em casa, sem utilizar um tempo precioso da sessão.

Utilize, a termoterapia com sabedoria, pois ela é um excelente recurso de baixo custo que você tem ao seu dispor. Nem tudo que dá resultado precisa ser acionado por um botão!