Tech Neck: A tecnologia pode ser um peso nas nossas costas?

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O que é Tech Neck e por que a tecnologia gera problema de saúde?

Fato consumado que passamos cada vez mais tempo com nossos smartphones e tablets, seja trabalhando, seja nos comunicando com familiares, amigos e colegas de trabalho.

O maior problema disso tudo são as alterações posturais que são geradas a partir desse hábito. Seja sentado, seja deitado na cada, seja de pé. O uso de celulares, principalmente, gerou uma epidemia de alinhamento inadequado do pescoço e da coluna cervical, condição essa chamada de “Tech Neck”, ou pescoço tecnológico.

Essa condição é caracterizada pela postura anteriorizada da cabeça, com conseqüente flexão da coluna cervical, e protusão de ombros.

O Tech Neck é uma condição relativamente nova, que vem aumentando ainda mais em prevalência com o advento de novas tecnologias.

Ele começa em indivíduos muito jovens, que têm cada vez mais acesso precoce à dispositivos móveis, e afeta principalmente quem trabalha em frente ao computador.

Criança com Tech Neck

Se não tratada corretamente, essa alteração postural pode afetar indivíduos para o resto da vida!

Cada centímetro de anteriorização da cabeça corresponde a dois quilogramas de peso extra a ser sustentado pela coluna vertebral! Com o peso médio da cabeça em torno 5 a 6 quilos, apenas com uma postura inadequada, podemos adicionar cerca de 10 quilos, ou seja, triplicar a carga a ser sustentada pela coluna cervical.

Já dá pra imaginar as conseqüências que essa carga extra, de forma crônica, pode trazer para o indivíduo, correto?

Muito mais do que um problema postural

O Tech Neck, apesar do nome, não afeta apenas o pescoço.  Frequentemente, os ombros, a coluna, os membros superiores, e até mesmo o quadril, são afetados. Se pensarmos no conceito de cadeias musculares, fica fácil entender como isso acontece.

A posição flexora adotada por indivíduos com essa condição modifica a cifose natural da coluna cervical, gerando desequilíbrios musculares, e conseqüente fraqueza muscular. Por outro lado, a flexão cervical anterior pode gerar ainda herniações nos discos cervicais, levando a sintomas de compressão nervosa que vai afetar principalmente os membros superiores.

Os músculos anteriores, flexores de pescoço, como os esternocleidomastóideos e os escalenos, encontram-se encurtados, e, consequentemente, fracos. A posição em constante contração e encurtamento gera tensão excessiva sobre o músculo, levando a dores, ao aparecimento de pontos gatilhos, e mesmo à limitação de ADM de pescoço.

Por outro lado, a musculatura posterior estabilizadora das costas, como o trapézio, os paravertebrais, os rombóides, e os eretores da espinha, se encontra em uma posição cronicamente “vencida”, ou seja, de estiramento. Um músculo excessivamente alongado, ou estirado, também é um músculo fraco, pois perde o alinhamento ótimo das pontes de actina e miosina, necessário para a geração de contração e força muscular. Além disso, também está sob constante tensão de estiramento, o que gera dor, pontos de tensão e fibrose.

Além de tudo, com o peso extra gerado sobre a coluna, e a flexão anterior excessiva da coluna cervical, os discos intravertebrais são pressionados, podendo gerar herniações, compressões nervosas, e um quadro de hérnia de disco cervical praticamente incapacitante.

Se o desalinhamento das forças de tensão nessa musculatura permanece por um longo período de tempo, alterações posturais permanentes podem ser geradas. Quanto mais cedo a postura flexora começa, mais difícil é retomar o alinhamento biomecânico ótimo do corpo.

Muitas causas de afastamento de trabalho são devido ao Tech Neck, e descobrir a origem do problema é fundamental para seu tratamento efetivo.

 

Qual é, então, o desafio para o fisioterapeuta?

No caso do Tech Neck, não adiante apenas a realização de uma avaliação impecável, e a aplicação de uma técnica bem feita.

Descobrir a origem das alterações posturais observadas é fundamental.

Como o Tech Neck tem sua gênese em hábitos de vida adquiridos de forma crônica, uma ou duas sessões de uma hora por semana não são suficientes para corrigir o problema, pois, nas outras 166 horas da semana, o paciente continuará adorando posições que reforçam o padrão flexor e contribuem para a manutenção do quadro.

Nesses casos, então, é fundamental uma educação em saúde, e conscientização do paciente sobre a sua condição.

Essa é uma conduta que fazemos muito pouco, ainda. Assumimos a responsabilidade de “consertar” o paciente a todo o custo. Aplica-se o que há de melhor em termos de terapêutica, mas se consegue uma melhora ínfima em relação ao quadro geral. É dar murro em ponta de faca.

Esse é mais um exemplo da importância de responsabilizar o paciente pelo seu cuidado. De deixar bem claro que o profissional mostra o caminho, mas que a maior parte do resultado será de acordo com os esforços realizados por ela, fora do consultório.

Tech Nekc - A evolução

Explicar as condutas, elaborar um plano de exercícios domiciliar, e acompanhar a realização do mesmo com avaliações periódicas são ações fundamentais no tratamento de desordens posturais, em especial do Tech Neck.

Além disso, avaliar cuidadosamente o ambiente no qual o paciente está inserido ajuda a corrigir o problema, que muitas vezes é gerado, ou agravado, pela má adaptação ergométrica das cadeiras do escritório, ou mesmo da casa do paciente, por exemplo.

Em alguns casos, será necessária inicialmente uma intervenção focada na redução da dor e alívio dos sintomas. Caso a origem dos desequilíbrios seja no trabalho, um afastamento temporário das atividades pode ser necessário.

Esta é uma intervenção muito mais ampla do que apenas reduzir a dor, fortalecer músculo fraco, e alongar músculo encurtado.

É mais uma forma de reforçar que o fisioterapeuta tem que abrir a cabeça e expandir o raciocínio clínico para além da biomecânica. Entender de cadeias musculares é importante, sim, fundamental. Mas, muito frequentemente, esses conceitos não são suficientes para tratar os pacientes, e deve-se ir além para que um resultado satisfatório seja alcançado com a nossa intervenção.

A tecnologia vem para facilitar a vida, quanto a isso não há dúvidas.

Ela ajuda a prática dos fisioterapeutas de muitas formas, através de aplicativos que auxiliam na avaliação, de ferramentas de tratamento, ou mesmo para a compartilhamento de conhecimento.

Com a informação ao alcance das nossas mãos, o tempo todo ficamos constantemente conectados. As consequências da dependência dos dispositivos móveis na sociedade estão começando a ser sentidas, de forma muita dolorosa, por uma grande parcela da população.

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Veja este vídeo curto, passos para corrigir a má postura e se livrar do pescoço tecnológico.