Movimento Corporal – Como a estrutura do corpo afeta a função

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O que se deve mudar primeiro, a estrutura do corpo ou o padrão do movimento?

A Fisioterapia é uma ciência focada no movimento corporal, diretamente ligada ao estudo do Sistema Nervoso. Vamos analisar como ele afeta a forma como nos movemos e o que podemos fazer para mudar sua função nesse aspecto.

Mas isso não significa que as estruturas corporais não são importantes, ou que o movimento corporal correto e adequado está apenas em circuitos neuronais. A estrutura e a saúde do sistema musculoesquelético são essenciais para a qualidade do movimento, assim como um motor enxuto é necessário para o bom funcionamento de um carro.

Adicionalmente, a estrutura corporal tem efeitos significativos em como o Sistema Nervoso exerce diversas funções, incluindo o controle motor. De fato, certas opções de controle e execução de tarefas motoras são impossíveis sem o aparato estrutural adequado.

Movendo-se bem para mover-se sempre

Muitas pessoas focadas na importância de se construir bons padrões de movimento concordariam com a ideia de que uma pessoa deveria se mover corretamente, antes de se mover frequentemente.

Por exemplo, uma pessoa deveria primeiramente aprender a forma correta de realizar um agachamento, para depois acrescentar carga ao movimento. Da mesma forma, uma pessoa não deveria correr uma maratona antes de ter certeza de que está preparada, de ter realizado o treino correto e de saber que possui o padrão de marcha adequado, sem sobrecarga de algum segmento vulnerável do corpo.

Sob essa perspectiva, a ordem de progressão é sempre desenvolver bons padrões de movimento corporal em um primeiro momento, para somente então aprimorar os padrões e adicionar carga para ganho de força, potência e resistência.

No entanto, devemos lembrar que, às vezes, a progressão oposta é necessária. Não raro precisamos primeiro desenvolver força, potência e resistência adequadas, para então conseguir a realização correta de certo padrão de movimento.

Isso acontece porque cada padrão de movimento exige certo nível de força, potência ou resistência para ser realizado, o que, em alguns casos, podem não estar presentes.

Para algumas atividades da vida diária, tais como caminhar, sentar ou levantar, esses níveis basais são bem baixos. Porém, muito frequentemente, os pacientes podem se encontrar abaixo desses níveis, tanto por lesões agudas ou por processos neurológicos crônicos, e certo fortalecimento será necessário para a aquisição ou modificação de certos padrões de movimento corporal.

Um estudo sobre o treinamento de força em mulheres acima de 90 anos mostrou que este proporciona um aumento da velocidade da marcha nessa população, o que indica melhor funcionalidade e menor risco de quedas. O treino de força pode inclusive melhorar padrões de marcha em pacientes com paralisia cerebral, os quais possuem déficits de força consideráveis.

Por outro lado, em atividades com uma maior demanda, força, potência e capacidade aeróbica são muito mais prováveis de serem fatores limitantes das atividades do que os padrões de movimentos disponíveis em nível neuronal.

Por exemplo, se uma pessoa não possuir força suficiente para realizar um agachamento unipodal, muito provavelmente não terá força suficiente também para executar uma variedade de movimentos exigidos para jogar futebol, por exemplo, independentemente do nível de coordenação motora.

O que parece, à primeira vista um problema relacionado à habilidade técnica e motora, é na verdade um problema relacionado à falta de força e potência muscular.

Sistemas Dinâmicos – porque a estrutura corporal afeta a função

A perspectiva dos sistemas dinâmicos no controle motor implica que ele não é determinado apenas por programas de movimento armazenados no cérebro. Ao contrário, a inteligência que os padrões de movimento possuem está no sistema como um todo.

Os movimentos, então, surgem de uma complexa interação de milhões de variáveis diferente, no organismo e no ambiente, incluindo a estrutura esquelética, tecido conectivo e a musculatura.

Portanto, se a estrutura do corpo for mudada, os padrões motores necessários para controlá-la vão, necessariamente, mudar.

Podemos pegar como exemplo uma pessoa que troca, de repente, de carro. Pense que você estava acostumado a dirigir um Gol, e agora o trocou por uma Ferrari. Excelente troca, não é mesmo?

De repente, um novo mundo de comportamentos motores relacionados à direção está disponível para você. Não demora muito e você já estará usando esses novos padrões. Acelerando mais, mantendo maior aceleração nas curvas, etc.

Nesse caso, o fator decisivo para a mudança nos seus padrões de direção não foi a sua habilidade atrás do volante, e sim a estrutura do carro.

Nós podemos fazer as mesmas correlações com a estrutura corporal. No caso, se uma pessoa perde 20 kg de massa gorda, ganha 10 kg de massa magra, melhora a condição de uma grande articulação do corpo, ou se cura de uma condição crônica, todo um novo repertório de opções de movimento corporal estaria disponível.

Alguns dos novos padrões podem, inclusive, serem mais efetivos e eficazes, fazendo com que o indivíduo melhore o seu controle motor sem nenhum pensamento ou esforço consciente para que esse aprendizado motor ocorra.

Lições do desenvolvimento infantil

Alguns experimentos desenvolvidos com crianças serviram para solucionar um aparente paradoxo em relação ao padrão de marcha, que aparece cedo, desaparece por um tempo e torna a reaparecer quase um ano depois.

A teoria mais aceita seria a de que os bebês, de alguma forma, adquiriam os programas necessários para o controle motor da marcha e os perdiam posteriormente.  Porém, pesquisas recentes mostraram que o fator decisivo era a razão da força pelo peso dos membros inferiores dos bebês. Pesquisadores conseguiram prevenir ou promover o reflexo de marcha em bebês, simplesmente colocando ou retirando peso das pernas.

Em outras palavras, mudanças na força relativa dos membros inferiores causam mudanças imediatas nos sistemas que criam o controle motor.

Conclusão

Sem dúvida alguma, dispor de algum tempo para trabalhar o aprimoramento de padrões de movimento e evitar a sobrecarga de padrões que muito provavelmente criarão estresse excessivo em alguns segmentos corporais, é uma ótima ideia.

Ao mesmo tempo, deve ser reconhecido que, em alguns casos, um dos modos mais rápidos e fáceis de promover uma mudança no controle motor é promover uma mudança na estrutura do corpo que estamos tentando controlar.

Adaptado de: https://www.bettermovement.org/blog/2014/how-structure-affects-function